Refúgio do Tempo
Sobre um lugar onde nada muda, exceto quem o visita.
A primeira vez que fui no Forte Santa Teresa, no Uruguai, próximo à divisa com o Brasil eu devia ter pouco mais de 10 anos. Acampei lá com a família do meu vizinho e melhor amigo de infância. Foi também a primeira vez que saí do país, nos distantes anos 90, de Fusca 74 cruzando uma reta infinita. Desde então, retornei incontáveis vezes.
Passados mais de 30 anos desde essa primeira visita, hoje tudo parece exatamente igual. A fronteira do Uruguai me traz muito uma sensação nostálgica de que lá o tempo parou. Nos anos 90 ou 2020, já na chegada ao Chuí a gente vê os carros antigos e enferrujados e as pessoas simples. Os hermanos tomando um mate na frente de casa. Aquele ar de cidade decadente com suas lojas tradicionais dos famosos queijos e dulce de leche. Uma delícia – dizem – porque a inspeção sanitária é tranqui. Ao mesmo tempo, as lojas “duty free” cheiram a todos os perfumes do mundo e estão lotadas de turistas carregando caixas de whisky. Nada muda. Nada mudou.
Passando o Chuí, quando criança, lembro que houve algum problema de documentação para que eu pudesse entrar no país sem a companhia de meus pais. Não sei exatamente como se resolveu a situação. Numa outra vez que fui, já no começo dos anos 2000, descobri outro tipo que sempre está lá. O oficial de fronteira clássico: ray ban, bigode, palito no dente e camisa florida. Vale a dica: carteira de motorista só serve para identificação em todo o território nacional.
Assim como a inspeção sanitária, descobri que la migra também é tranqui e entendi como a situação se resolveu lá nos anos 90. “Dale una contribución para la aduana e se queda todo bién.” Nada muda. Já perdi a conta de quantas vezes encontrei com esse personagem e paguei propina, seja por estar errado, seja por ter sido induzido ao erro. É bom sempre ter uns reales sobrando na carteira.
Descendo mais uns 40km ao sul, chegamos enfim, na fortaleza, construída no século XVIII por portugueses e depois finalizada por espanhóis. Ainda hoje está aberta para visitações e funciona como um museu, onde podemos descobrir como era a vida dos militares que a ocuparam. Na primeira vez que fui, tirei fotos fingindo ser um combatente, sentado na latrina ou apertando a mão de um manequim com roupas históricas. 30 anos depois, os mesmos bonecos, as mesmas maquetes, a mesma latrina. Repeti quase todas as fotos – que perdi na enchente – e fiz mais algumas com minha namorada, vinda do teatro com muito mais criatividade para as encenações. Quem viu uma vez, não precisa ir de novo. Nada muda. Mas quem vai de novo, vê com outros olhos.
A fortaleza fica dentro do Parque Nacional de Santa Tereza, uma área de de preservação com espaço para acampar e acesso a duas praias no mesmo estilo ventoso do litoral “chocolatão” gaúcho. Com sorte, dá pra pegar uns dias bons. São 3000 hectares de extensão, dos quais 1400 estão cobertos de bosque, povoados com mais de 2 milhões de árvores exóticas e nativas. Dá pra ficar isolado mesmo quando enche de brasileiros, principalmente no carnaval. Nos anos 80 tudo bem, mas me parece loucura que ainda hoje, seja permitido fazer fogueiras em qualquer lugar do camping. O Ibama deles deve ser tranqui.
A estadia, na falta de outra palavra, é rústica. Lembro do meu medo na primeira ida, quando os adultos comentaram que os banheiros eram diferentes. Não tinham vasos sanitários, mas sim um buraco no chão. Você faz tudo de pé. Ou de cócoras, se preferir. O buraco é de uns 10cm de diâmetro. Tem que ter boa mira. O banho é quente quando você está na barraca, mas quando você chega no vestiário é frio. E segue assim, tudo igual. Nada muda.
Quem muda somos nós, os visitantes a cada nova entrada.
Acampar em meio ao arvoredo de Santa Tereza me traz emoções distintas a cada ida. O barulho e o cheiro dos eucaliptos sacudindo com o vento de final de tarde, aos 10 anos me davam tédio, aos 20 eram o sinal para o banho antes de uma festa e hoje me põem a pensar na vida. O canto das milhares de caturritas que fazem seus ninhos na região. A fogueira à lenha no chão com uma carne assando. Lembro da infância, lembro da adolescência, dos melhores amigos que viraram distantes, dos amigos que não tenho mais e do começo de um grande amor. Lembro de cada vez que(m) fui.
A melhor coisa de descer ao sul rumo ao Uruguai é saber exatamente o que eu vou encontrar. Sei que vou ver as capivaras na estrada, que vou passar frio na praia e sei que vou “errar o alvo” no banheiro. Sei também que devo me despedir daquele eu, pois serei uma pessoa diferente na próxima visita. Mas lá… lá estará tudo igual.



