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Parestesias

Um recomeço no substack

Ano passado eu morri
e na pele, aprendi o nome:
parestesia é o que sofri
em vários idiomas do corpo.

Abril me pôs numa cadeira branca
Dois sisos a menos,
duas memórias a mais.
Acordei com um país estranho
ocupando a gengiva
formigamentos de antanho
às vezes ausência ativa
às vezes dor que não sabe se dizer
Um mapa sem legenda
no lado direito do ser

Depois entendi com desgosto
um nervo ficou exposto,
alguns milímetros de desvelo
“com o tempo passa” veio o apelo

Não passou

Em um mês a água chegou
E como num salto
sem cordas ou redes
Perdemos a casa
e a palavra casa,
perdemos paredes,
porto, prumo,
e a ideia de chão que não se move
Primeiro, doeu sem rumo

Depois veio a ansiedade,
um incômodo elétrico,
um formigar por dentro,
e então uma apatia morna,
uma dormência do tempo
Difícil de nomear, difícil de dizer.
Com licença pelo drama do termo:
uma parestesia da alma
e as palavras buscaram calma
“com o tempo passa”

Não passou.

Descobri de novo que
mais um nervo ficou exposto,
e passei a escrever
para lidar com o que ficou posto
No começo, só para mim
um fio de volta à sensibilidade.
Lembrei que a arte me chamava
e que eu a deixara na porta,
enquanto eu perseguia a palavra
estabilidade

Escrever foi / é terapêutico
correnteza que carrega
sem afogar em desesperança
agulha fina que desperta
pele e lembrança

Mas esse ano eu não morro
decidi sair do torpor,
estudar o ofício,
postar exercícios, tropeços,
experiências de falar no papel.
E num desenho a cada texto,
reaprender a outra mão
que a rotina adormeceu.

Vai inquietar.
Vai ser dolorido
Haverá conto, haverá confissão,
ideias soltas e coisas
sem endereço ou pretensão
formigamentos e descobertas
de um ser que antes sentia morto
Que entre esses choques leves
alguma sensação volte, e, quem sabe,
a casa reencontre o corpo.


Traduzindo, 2024 foi um ano punk.

Agora em 2025, resolvi sair um pouco do estado de dormência e me matriculei numa especialização em escrita criativa. A ideia é postar aqui nesse substack os resultados dos meus exercícios e experiências com o ato de escrever.

Está no plano fazer algo de design ou vídeo pra ilustrar cada texto. Tentando recuperar também essa habilidade perdida ao longo dos anos.

Se tu chegou até aqui, seja muito bem-vindo. Espero que goste e que se sinta à vontade pra comentar comigo sobre cada texto.

Aos que já estavam aqui, recebam meu abraço e agradecimento pela companhia.

Obrigado por ler o Parestesias! Se quiser me acompanhar e receber novos textos, deixa teu email abaixo.

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