#01: Descobertas no silêncio
Inaugurando uma sessão desse Substack onde vou falar mais sobre processos, criatividade e descobertas como "escritor".
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Faz um tempo, desde abril, que esse espaço anda meio parado. Não foi falta de vontade. Muito pelo contrário: nos últimos meses eu me joguei de cabeça (leia-se “fiquei obcecado”) numa ideia de romance que venho escrevendo, e pouco sobrou pra qualquer outra coisa. A proposta desse substack era publicar minhas experiências com a escrita, mas encarar um trabalho mais longo acabou desviando esse projeto, como é natural em tudo o que envolve criar. Algumas ideias de novas histórias surgiram, mas a cabeça insistia em puxar de volta pro romance.
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Quanto ao livro, ainda vou falar bastante dele aqui, mas por enquanto apenas isso: o plano original era publicar, capítulo por capítulo, quase como uma websérie. Seria um tema que me ajudaria a manter o Substack atualizado quando não tivesse nenhum outro para escrever. O algoritmo pede consistência. Era uma historinha fechada: um assassino em série matando um tipo diferente de influenciador digital a cada episódio, num tom ácido e cômico. A ideia era que você pudesse ler um único capítulo e entender uma história com começo e fim. Ele funcionaria sozinho, mas quem acompanhasse tudo ia perceber que existia uma história maior sendo contada por trás. Um pouco como um procedural de TV: cada episódio resolve o próprio caso da semana, mas a temporada inteira tá te levando pra outro lugar. Quem lê um capítulo ganha uma historinha. Quem acompanha a série inteira ganha uma recompensa maior.
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Eu andei meio “monotemático”, mas não custa repetir: no último ano, eu me afastei da operação da empresa que eu mesmo fundei — ainda sou sócio, mas cheguei num nível de estresse e de esgotamento que não dava mais pra sustentar, e precisei sair de dentro do dia a dia. Levou uns bons meses até eu conseguir atravessar o que precisava atravessar nesse afastamento — o estranhamento de não ter mais uma rotina dizendo o que fazer, a culpa boba de não estar “produzindo” no sentido que a gente é treinado a entender produção — e voltar a me sentir criativo, de um jeito que fazia sentido pra mim.
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Tem um comentário que vi rodando nas redes, que perguntava mais ou menos assim: o que você faria se escrever fosse o seu emprego? Se alguém te pagasse pra escrever o livro que você sempre quis escrever, ou pra fazer a arte que você sempre quis fazer? Isso me fez pensar em por que quando era para os clientes, eu trabalhava horas a fio, acordava cedo, estabelecia uma rotina e quando era pra mim não? A resposta que eu precisava descobrir estava justamente onde o que eu quero escrever converge com o que eu já vivenciei. O livro precisava ser mais pessoal. Não uma autobiografia, mas uma forma de rever minha experiência nos personagens que eu não estava conseguindo dar vida.
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O livro foi escrito muito rápido. Descobri, na prática, que sentar e escrever não é o trabalho difícil. O trabalho difícil é antes disso: é o processo de se estimular, de deixar a ideia amadurecer sozinha por meses ou anos, de se convencer de que aquilo merece o seu tempo e o tempo dos outros. Depois disso, escrever é quase braçal. É sentar a bunda na cadeira e fazer, um dia atrás do outro, sem que precise ser um ato heroico — só um trabalho, como qualquer outro, só que esse eu escolhi. O que está demorando bem mais agora é o processo de revisar e reescrever o que foi feito com a potência de um ato criativo bruto.
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Para conseguir vencer a procrastinação, o romance que começou como uma crítica ácida à cultura de influencer, mídia, algoritmo e ao vício em dopamina que o feed produz de propósito, no meio do caminho, virou também uma crítica (torta) ao viver em função do trabalho e nunca sobrar tempo pra arte, sobre aquilo que você ama fazer ficando sempre pra depois, e sobre o risco de, quando você finalmente consegue fazer esse “depois” acontecer, transformar o que ama num novo tipo de obrigação: fazer não mais para si, mas pra agradar um algoritmo. A minha própria frustração de anos tentando construir um trabalho autoral enquanto pagava as contas com outra coisa virou, sem que eu planejasse, parte da história maior que o livro queria contar
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Entrei então no que talvez seja o momento mais criativo da minha vida. Uma vitória gigante, depois de anos pensando diariamente em não estar mais vivo. O que mudou não foi mágica: foi terapia, foi medicação, foi me afastar do estresse que estava me consumindo. A criatividade vem voltando aos poucos, junto com o resto. Estou produzindo música, vídeo, escrevendo poesia (inclusive selecionada para publicação que sai em breve), escrevendo conto (inclusive selecionado para uma antologia), terminando um romance, gravando um disco — tudo ao mesmo tempo, tudo se alimentando um pouco do outro. Estou tratando o ato de criar como o trabalho em si, e não como o que sobra depois do trabalho de verdade. Estou perdendo a vergonha de deixar o que eu produzo tentar encontrar o mundo, em vez de guardar tudo numa gaveta esperando um momento perfeito que nunca chega.
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Decidi voltar a usar esse espaço em forma de lugar de confidências. Não pra publicar ficção pronta, pelo menos não por enquanto. Por ora, quero usar esse lugar pra ir registrando o processo: as decisões que a gente toma sem perceber que está tomando, os becos sem saída, as descobertas do processo, as coisas que só fazem sentido quando você já escreveu a próxima cena. Talvez sirva pra alguém que também esteja procrastinando a própria arte, esperando uma autorização de que ela é importante o suficiente.
Ninguém vai pagar você pra escrever o seu livro.
Mas você pode fingir que já paga, e ver o que acontece.
Obrigado!
Se você chegou até aqui, é porque algo que eu disse fez sentido. Agradeço a presença, curtida, comentários e se seguir por aqui lendo o que já escrevi e o que ainda vou escrever.




Balu, gostaria de ouvir a respeito da proposta do seu Conto ÀÌPÉ - Incompleto, o seu primeiro Ponta-pé impresso.
Balu, que coisa boa te ler! Inauguramos nossos textos no substack na mesma semana. Me identifiquei demais <3